segunda-feira, 10 de maio de 2010

O ADEUS A UM SERTANEJO

Morreu hoje de madrugada, em Teresina, um dos últimos sertanejos verdadeiramente do campo ainda existente em Alto Parnaíba. Prestes a completar 71 anos de idade no próximo dia 14 de maio, José Rodrigues, conhecido popularmente apenas por Zé de Leônidas, sofreu um acidente quando trabalhava na roça, ficando sem socorro por mais de vinte e quatro horas, posteriormente transportado para a capital do Piauí, vindo a desencarnar.

Zé de Leônidas foi uma pessoa que marcou a minha infância e adolescência, pois sempre próximo de minha família, companhia de meu pai e nossa em viagens pelo interior do município, contador privilegiado de causos, homem de uma palavra apenas, detentor de princípios morais rígidos, que criou uma numerosa prole com o suor do rosto, cujas mãos calejadas testemunhavam o seu afinco ao trabalho árduo e ingrato de quem lavra ainda prinitivamente a terra, objetivando apenas o alimento seu e da família.

Recentemente, Zé foi testemunha de outra sertaneja, deserdada da sorte e da cidadania, que tentava provar na Justiça a união estável de mais de trinta anos com o companheiro morto. O juiz, educado e com traqueijo, como praxe fez a advertência de que mentir é crime. A trestemunha Zé, sem pestanejar, respondeu ao meritíssimo: "Se tem uma coisa que nunca fiz na vida foi mentir, doutor. Não sei ler, mais não sou mentiroso".

Uma simples menção a uma provável mentira, já deixava indignado o nosso Zé, filho de Leônidas, velho vaqueiro de meu avô Antunim Rocha e de meu pai lá para as bandas da Fazenda Água Branca, em cuja região Zé e seus irmãos nasceram e se criaram, até se situarem no lugar Mundo Novo, um pedaço de terra que meu falecido genitor cedeu aos seus antigos vaqueiros.

Pessoas como Zé de Leônidas ao morrerem deixam mais pobre e mais carente a nossa terra, já tão privada de certos valores, como aqueles do homem correto, sério, verdadeiro, que vivia exclusivamente do suor do rosto, respeitador, de poucas letras porém culto no seu modo de viver.

Casado com Santinha e pai de vários filhos, o Zé filho de Leônidas deixou seu nome simples e de sertanejo inscrito no que de melhor meu município produziu.

Um comentário:

  1. Dr. Décio

    Parabéns pelo blog. Sua pena magistral me fez rememorar, com indescritível nostalgia, nossa Alto Parnaíba. Mesmo vivendo em Belém, Amazônia, onde busco avanço acadêmico,não há um só dia que não me lembre,sob forte saudade, do meu recôndito natal.
    Embora sucateada e penalizada pelos acintes de um negligente e precário poder público, AP ainda ostenta um passado honroso e a esperança de dias melhores.

    Obrigado por compartilhar, neste espaço, seus excelentes escritos.

    Um abraço, do conterrâneo

    Francisco Helder Sousa cardoso
    http://www.franciscohelder.wordpress.com/

    "E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo devido colheremos os frutos, se não tivermos desfalecido" (Gálatas 6.9)

    "Feliz é o homem que teme a Deus e anda nos seus caminhos" (Salmo 128.1)

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