segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O DESCANSO DE DONZELA

O tempo é implacável. As personagens populares de minha pequena Alto Parnaíba, a mais meridional cidade do sul maranhense e o município com maior altitude, ainda remanescentes de uma era mais romântica, quando a modernidade se restringia às grandes cidades, estão desaparecendo e deixando a nossa comunidade mais pobre de valores essencialmente humanos.

Há três dias foi a vez de Maria Pereira dos Santos, conhecida apenas por Donzela, como gostava de ser tratada; e explicava as razões. Mãe de Ives, morto recentemente, é óbvio que Maria não carregava mais esse rótulo. Entretanto, após um segundo parto dificílimo em que a criança não vingou, o seu estado mental se agravou e ela passou a ter ogeriza pelo marido, Raimundo Nonato de Sousa (o Mão de Paca), a quem culpava, na singularidade de seu drama, de seus males. Daí, a exigência de ser tratada e reverenciada como se ainda fosse virgem.

Por muitos anos perambulando pelas ruas, sem casa, e sem aceitar um tratamento médico e nem mesmo um simples banho, Donzela foi uma das primeiras clientes que abrecei a causa quando retornei a Alto Parnaíba em 1992, como advogado - sem honorários. Wagner e Albanisa Mascarenhas, protetores de Donzela e do afilhado Ives, pediram-me que estudasse a possibilidade legal de obtenção de um benefício previdenciário para Maria. A luta não foi fácil, porém inesquecível, e não pela demora crônica da Justiça. O problema é que Donzela não aceitava ir ao fórum para ser examinada pessoalmente e interrogada pelo juiz, no caso a juíza Ilva Eliseu Salazar, uma das mais corretas e humanas magistradas que tive o privilégio de conviver, hoje aposentada. Com paciência e extremo respeito pela condição humana, Ilva conduziu o processo, fez uma espécie de inspeção judicial a um dos locais - na rua - onde a cidadã Maria Pereira dos Santos, lavradora desde a infância, passava as noites. Convencida pela realidade, a magistrada deu a sentença e decretou a interdição de Donzela, procedimento indispensável para a obtenção do benefício do INSS, quando ainda não existia o LOA.

Aposentada por invalidez como segurada especial da previdência, e sob a ajuda jamais negada dos compadres e protetores Albanisa e Wagner Mascarenhas, bem como da Loja Maçônica Harmonia e Trabalho, na gestão do venerável (presidente) Raimundo Alves de Almeida, também foi possível a construção de uma casa que abrigou Maria e seu filho único até o desenlace de ambos. Sem dinheiro público, a boa-fé e a solidariedade de habitantes da pequena cidade tiraram Maria do sol e da chuva e lhe proporcionaram mais uns 20 anos de vida. E de vida com dignidade e em plena donzelisse da alma.

Donzela jamais aceitou a morte do filho; vivia na ilusão de que ele estava trabalhando fora da cidade e de que um dia voltaria. Com certeza, já se encontraram, pois Deus é misericordioso e infinito de Justiça em suas decisões. Nascida na Fazenda Escalvado, na margem maranhense do rio Parnaiba, a 15 km da cidade, onde tiveram início as primeiras construções de Alto Parnaíba, filha de Manoel José e irmã do lendário Cícero Pereira dos Santos, o popular Lulú Saliva, Donzela não fez mal a ninguém na sua passagem terrena, não pulou carnaval e nem blasfemou contra o Criador. Não duvido de que Maria realmente fosse Virgem e como tal, imagino que tenha sido acolhida pela primeira Maria, a Virgem Santíssima.

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