segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A BOA PARTEIRA

Centenas de crianças em várias gerações por mais de meio século, tanto em Santa Filomena, no sudoeste piauiense, como Alto Parnaíba, o primeiro banhado pelo Parnaíba maranhense, chegaram ao mundo pelas mãos habilidosas, carinhosas, experientes e decididas de uma mulher extraordinária, que por muito tempo substitutiu a figura do médico, escassa entre nós no mais abandonado e desassistido interior do nordeste brasileiro naqueles tempos.
Hosana Rosa e Sá, ou apenas Mãe Zana, como era tratada carinhosamente por todos nós que a tinhamos como uma segunda mãe e com o respeito devotado merecido, morreu aos 78 anos de idade há exatos trinta anos, de forma súbita, na cidade de Alto Parnaíba, onde morava após mudar-se do outro lado parnaibano do Velho Monge, filomenense que era. Parteira por abnegação e dom natural quase divino, Hosana também era dona de pensão, estabelecimento que fornecia comida típica cozida nos fogões à lenha e dormida para os visitantes que chegavam às pequenas Santa Filomena e Alto Parnaíba. Mãe de três filhos, Mãe Zana criou-os praticamente sozinha, já que o marido, Silvestre José de Sá, assim como vários chefes de família da época, deixou a mulher e prole em busca de melhorias em outras regiões do país e não mais deu notícias.

Nem por isso, ela se lamentava ou desejava o mau aos outros. Era detentora de uma fé impressionante em Deus e transmitiu aos seus filhos, Raimundo Nonato Rosa e Sá, Maria de Lourdes Rosa e Sá, a Baía, e Antonio Rosa e Sá, o Tuíca, e aos netos que com ela conviveram, o sentimento da bondade, da gratidão com o Criador e com aqueles que os ajudaram a vencer as lides da vida, do respeito com o próximo, aliados ao otimismo, à alegria e ao trabalho honrado para se manter com dignidade.
Nos almoços de domingo na casa de meus pais, a figura de Mãe Zana era sagrada, ali com seu bom humor, o sorriso amplo, o porte físico avantajado adquirido ao dividir com suas clientes a deliciosa e tradicional galinha de parida com pirão nos quarenta dias de resguardo dos partos, a sua conversa amena até com as crianças e os seus ensinamentos naturais da vida.

Sua única filha mulher, a popular Baía, que também nos deixou, herdou da mãe o gosto pela cozinha, o carisma, a alegria, o humor contagiante, conduzindo a pensão e hotel Vitória por anos até seu desencarne, ajudando a mãe a criar netos , dentre os quais Raimundo Nonato Rosa e Sá Filho, o Raimundo Filho, e Jean Pereira Rosa, que hoje toca o hotel, herdeiros privilegiados de um DNA de pessoas que preferiam levar suas vidas sem mágoas, sem ranços, sem traumas, sem ingratidões, prevalecendo o sorriso, a alegria, o humor fácil que consagrou Tuíca, também no plano superior.

A filomenense Hosana mudou-se para o lado maranhense do Velho Monge ainda jovem, deixando no comando da pensão que conduzira suas irmãs Josefa (Zefa) e Domingas Alves da Rosa (Minga), esta também serventuária da Justiça em Santa Filomena, falecidas. Ainda em Victória do Alto Parnaíba, abriu a sua pensão e passou a centralizar os atendimentos às gestantes, acompanhando passo a passo as gestações até o final, trazendo ao mundo tantas e tantas crianças, com a maestria cirúrgica de mãos abençoadas por Cristo, inclusive admirada e respeitada pelos médicos - poucos - que por cá passaram naqueles idos distantes.

Por tudo isso, Hosana Rosa e Sá é parte integrante e construtiva de nossa terra, nas duas margens primeiras do rio Parnaíba.

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