sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A DESPEDIDA DE UM AUTÊNTICO SERTANEJO

Paulo Pitombeira foi uma das pessoas mais próximas de minha família com quem mantive uma amizade fraterna e sincera durante toda a vida, mesmo com a diferença de idade entre nós.

No último dia 11 de janeiro, no início da manhã na Fazenda Sucupira, de Gonzaga Lopes, onde passava uns dias com uma de suas filhas, o velho Pitombeira, aos 90 anos de idade, morreu tal qual um passarinho, precisamente um assum preto, pois cego dos olhos pelas pelejas de uma longa vida de sertanejo em terras distantes do chamado mundo civilizado. O assum preto ou pássaro preto - para nós de Alto Parnaíba -, por sua vez, tinha os olhos perfurados pela desumanidade e irracionalidade do homem para cantar melhor, conforme a canção de Luiz Gonzaga. As mãos calejadas da enxada, da foice, do facão, a pele curtida pelo sol inclemente, o velho chapéu de palha e a inseparável roupa clara, com camisas de mangas compridas, e no nos últimos dez anos de vida a perda total da visão, simbolizavam em Paulo Pitombeira de Oliveira a mesma sina do sertanejo relegado ao próprio destino pelos poderosos que, impunes, continuam a massacrar o Maranhão e a impor desigualdades reais no Brasil de verdade.

Já advogado e tendo retornado à minha terra natal, acompanhei a peleja de Pitombeira para legalizar um pedaço de terra, que não era de ninguém. Agentes do Estado não respondiam aquele nordestino semi-analfabeto, insistente na defesa de ter direito a um pedacinho de terra para nela labutar, com certeza pelo desdém daqueles que acham que não morrem e não apodrecem. Felizmente, um bom juiz acolheu uma petição minha e o Pitombeira, antes de ficar cego, conseguiu enxergar a cegueira da verdadeira Justiça, que não distingue e nem discrimina.

Casado com uma mulher da família Vogado e morador da região da Fazenda Morrinhos, no município sul maranhense de Alto Parnaíba, o cearense Paulo Pitombeira era uma figura permanente em nosso convívio familiar, de prosa boa, causos que encantavam, já viúvo deixou filhos, como Gilvan Pitombeira, netos e bisnetos, e partiu sem luxo e sem espólio de bens materiais, mas encantado como os versos de Quitana.

2 comentários:

  1. Eu conheci o sr. Paulo Pitombeira qquando criança na Fazenda Morrinhos, sinto saudades de toda aquela gente. Mudei de lá aos onze anos de idade e jamais esquecerei aquela terra maravilhosa. Sou neta da saudosa Sinhá Sousa.

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    1. Marinez, agradeço o seu comentário, que ilustra esta página. O Paulo era realmente um sertanejo típico, figura inesquecível, dessas que marcam a nossa vida. Sua avó Sinhá também era uma pessoa especial, referência na região do povoado Morrinhos, amiga leal de minha família, especialmente de meu pai Rochinha. Foi um prazer conversar contigo. Paz, saúde e prosperidade.

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