terça-feira, 15 de novembro de 2011

ALTO PARNAÍBA E A REPÚBLICA

Quando o hoje município de Alto Parnaíba, no sul do Maranhão, foi fundado em 1866 com o nome de Frequesia de Nossa Senhora das Victórias, o Brasil ainda vivia sob o regime monárquico e a região então centralizada em Parnaguá era dominada politicamente por aliados incondicionais e amigos pessoais do Imperador Pedro II, parentes de seu primeiro-ministro, João Lustosa da Cunha Paranaguá, o Marquês de Paranaguá, os irmãos destes, tenente-coronel José Lustosa da Cunha, o Barão de Santa Filomena, e coronel José da Cunha Lustosa, o Barão de Paraim.


Daí que o advento da República favoreceu politicamente os desbravadores e fundadores de Alto Parnaíba, que mesmo parentes dos barões, tornaram-se desafetos destes em razão da conquista do território e posterior emancipação política de Alto Parnaíba, cujo clima de intranquilidade era permanente com ameças de ambos os lados.

Findo o baronato e outros titulos de nobreza comuns à monarquia, os republicanos, com origem comum no regime derrubado com extrema facilidade em face da frágil saúde física e política de Pedro II, apressaram em ampliar a outorga de um outro título com intuito parecido, mesclado com o militarismo, temerosos com a fragilidade da federação especialmente no vasto interior do país.

A guarda nacional atingiu o Brasil rural e seus oficiais, sem preparação militar, eram os chefes políticos de cada vila ou pólo regional. Em Victória do Alto Parnaíba não foi diferente. Segundo o Diário Oficial da União em sua edição de 25 de março de 1893, pág. 2, seção 1 (disponibilizado no google), o 88º batalhão de infantaria sediado no hoje município de Alto Parnaíba, ali com a inscrição comarca do Alto Parnahyba, era comandado pelo tenente-coronel Samuel Lustosa de Britto, o primeiro prefeito do regime republicano e filho do fundador de nosso município, Cândido Lustosa de Britto, mantido juiz municipal também no novo regime político. O major fiscal era Moysés Lustosa de Britto, irmão de Samuel; os capitães-assistentes, Absalão José do Amaral Britto - sobrinho do coronel Antonio Luiz do Amaral Britto, futuro vice-governador maranhense e o principal líder da região do Alto Parnaíba na República - e Manuel Victorino da Paixão; e os capitães-assistentes de ordens, Cornélio Lopes de Andrade e Josias Francisco de Araújo. Esses e outros, incluindo alguns de Santa Filomena, foram nomeados anteriormente para comporem a guarda nacional por portaria do vice-presidente dos Estados Unidos do Brasil, marechal Floriano Peixoto, dentre os quais o capitão David Lustosa de Britto, também irmão de Samuel e padrasto de meu avô paterno, Antonio de Araújo Rocha, e o tenente-coronel Carlos Lustosa da Cunha, filho do Barão do Paraim e genro do tio, o Barão de Santa Filomena, já que casado com Filomena Lustosa da Cunha, única filha do chefe regional com a esposa legítima.

Era o poder político dominante de Cândido, seus descendentes e aliados, mas que não se restringiu à família dele, ao contrário, os sobrenomes históricos mostram que o poder não era absoluto e até o que chamamos hoje de Prefeitura era um colegiado ou Conselho Municipal, presidido por um intendente (prefeito) e composto por conselheiros e vereadores. Várias famílias seguiram o fundador de Alto Parnaíba em sua corajosa empreitada de sediar e povoar um imenso território, descentralizando-o política, administrativa e economicamente do poder monárquico regional, o que contribuiu para um início de prosperidade e desenvolvimento para a nossa terra, mesmo distante dos grandes centros urbanos e do poder político estadual e nacional. como a navegação pelo rio Parnaíba desde os portos de Victória e Santa Filomena até Teresina, a estrada para o sal ligando-nos por terra ao norte de Goiás e de lá ao restante do país, a primeira escola estadual, a vinda do primeiro médico e instalação de um pequeno posto de saúde.

Samuel Lustosa de Britto nasceu em 16 de novembro de 1856, 33 anos antes da proclamação da República, faleceu em 1931 e deixou uma imensa descendência, já que, entre esposas legítimas ou não, teve cinco mulheres, que geraram muitos filhos seus. Acredito que ele não tenha mais nenhum filho vivo. Acho que o último ou um dos últimos a morrer, já bastante idoso, foi Moyses Lustosa de Britto, filho dele com a terceira esposa, Guilhermina Lustosa do Amaral Britto, um dos fundadores do próspero município de Gurupi, hoje estado do Tocantins, e empresário de sucesso nos anos 1950 e 1960. Em Santa Filomena e Alto Parnaíba ainda vivem netos de Samuel, que são os seguintes se a memória histórica não me trair com algum nome. No lado do Parnaíba piauiense: Maria Salvadora Lustosa Nogueira Duailibe e Damasceno Lustosa Nogueira (filhos de Maria do Amaral Nogueira, Santa); na outra margem do Velho Monge: Laide do Amaral Brito Alves (filha de Hamilton Lustosa de Britto, Mitim); Ana Joaquina Carvalho de Brito (Quininha); Prestes Carvalho de Brito e Siqueira Carvalho de Brito (filhos de Luiz Carvalho Lustosa de Britto); Samuel Moreira Brito (filho de Odino Lustosa de Britto), além de bisnetos e trinetos. Uma curiosidade depois de mais de um século: a avó paterna do atual prefeito de Alto Parnaíba, Ernani do Amaral Soares e de seu antecessor, Ranieri Avelino Soares, dona Maria Eulina de Carvalho Brito Soares era filha de Luiz Carvalho Lustosa de Britto e de Victória Lustosa de Britto, portanto, neta tanto de Samuel como de Cândido, já que o pai era sobrinho da mãe.


Samuel Lustosa de Britto. Foto do arquivo do historiador Lindolpho do Amaral Almeida.


Em Gurupi, Goiânia, Brasilia e outras cidades pelo país, inúmeros outros descendentes de nosso primeiro prefeito republicano, comandante da guarda nacional regional e com título da nobreza republicana.

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