sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

RECORDAÇÕES DE BERILO VARGAS

Como sempre atencioso e extremamente ligado às pessoas, aos fatos, à história e às coisas de Victória do Alto Parnáíba, hoje Alto Parnaíba, no sul maranhense, nossa terra mãe, o jornalista, escritor, tradutor, diplomata e professor Berilo Vargas, filho biológico do primeiro vitoriense, ou alto-parnaibano, a obter o diploma em curso superior, o falecido dentista e ex-prefeito de nosso município, João do Amaral Vargas, e de dona Estelita, me enviou mais uma bela crônica onde, de volta ao passado tão presente em nossas memórias e reminiscências, faz um reconhecimento ao tratamento dado por meus avós paternos Ifigênia e Antonio de Araújo Rocha (Ifigênia), quando sua mãe, recém-casada, passou a morar com o marido na velha Victória.

"Meu caro Décio,

As conversas com Maurina sempre rendem surpreendentes novidades antigas. Nunca imaginei, por exemplo, que ela guardasse lembranças tão minuciosas do convívio com Tirzah, há tanto tempo interrompido. E acabo de saber por ela que minha mãe Estelita era apaixonada pelo casal Ifigênia/Antunim Rocha. Chamava sua avó de Madrinha Ifigênia.


Enquanto morou em Vitória, quase todos os dias depois do almoço a baiana Estelita atravessava a Rua da Piçarra no sol quente para cumprir um ritual sagrado; fazer-lhes uma rápida visita na casa da beira do rio, de onde devia voltar já pensando no prazer da visita do dia seguinte.


Essa mescla de amor, carinho e respeito era reflexo de um sentimento de gratidão. Quando a ainda adolescente Estelita chegou a Vitória em meados dos anos 30 casada com João Vargas deve ter frustrado os planos de mais de uma moça solteira, para quem o jovem dentista que voltara de Belo Horizonte com o primeiro diploma de curso superior conquistado por um vitoriense era ótimo partido. Não havia outra explicação para a acolhida menos do que entusiástica que teve em certos redutos.


Já Ifigênia e Antunim viram nela a moça de boa família que por amor e devoção seguira corajosamente o marido para começar vida nova e constituir família longe de sua gente. E deram-lhe generosamente o que precisava; um canto acolhedor, a mão estendida da amizade, o ensejo de mostrar quem era e de onde vinha.


Esse ponto de apoio lhe foi essencial para a criação de um círculo de amizades, de um novo ambiente familiar e social. Ela fez bom uso. Quando se mudou para Balsas em 1955, dezenove anos depois, provavelmente deixou mais saudades do que o próprio marido, filho da terra. (Pode-se imaginar a sua tristeza e desolação quando no ano seguinte, na cidade vizinha, recebeu a notícia da morte do ilustre amigo e mentor Antunim Rocha).


Rasgos de bondade desinteressada são raros na vida, você sabe. Por isso talvez não seja exagero supor que só a morte, décadas depois, apagou da memória de minha mãe as doces impressões deixadas pela atitude solidaria de Ifigênia e Antunim - se é que a morte apaga o que não é para ser apagado.

Um abraço do parente amigo,

Berilo".

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